Vida de Santo Antão por Santo Atanásio de Alexandria

28/10/2019

Olá,

Que a paz esteja contigo e com a sua família! Chegamos com mais uma obra que tem muito a nos dizer sobre a vivência católica, especialmente, por se tratar de um livro que teve um grande impacto na história da Igreja. Podemos nos perguntar: por que este livro foi importante e que efeitos ele produziu na história da Igreja? Para responder a estas duas perguntas, é necessário conhecermos, o testemunho de vida de Santo Antão e Santo Atanásio. Ambos tiveram contribuições decisivas nesse período histórico da Igreja. É, certamente, um convite a avaliarmos nossos conceitos de cristãos católicos, para que possamos agir conscientes da necessidade de sermos testemunhas vivas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

OBRA

O livro Vida de Santo Antão foi escrito por Santo Atanásio de Alexandria. Alguns biógrafos acreditam que tenha sido escrito entre os anos 356 e 362. Outros, porém, defendem que ele tenha escrito no retorno do último exílio que aconteceu no ano de 366. Independente do período em que foi escrito, é possível presumir que a finalidade do livro "Vida de Santo Antão", tenha sido naquele momento, mais do que um tratado de espiritualidade, um modelo digno de imitação para os monges.

Mesmo assim, Santo Atanásio consegue mostrar que a santidade ou a perfeição cristã, animada pelo espírito e refletida nas figuras bíblicas (especialmente, João Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Apóstolos), e nos Mártires da Igreja, continuava ao alcance de todos. Ele percebeu que podia mudar o quadro externo, onde no primeiro momento os grandes santos eram todos, com exceção do apóstolo João, martirizado, agora, Santo Antão inaugura uma nova fase para viver a santidade - a contemplação. E esse estilo de vida, é um caminho indispensável para os que desejam ter um encontro pessoal com o Cristo.

ESTRUTURA

Esta edição publicada neste ano de 2019, pela (Minha Biblioteca Católica), possuem 172 páginas, e contém na parte final do livro, a Conferência I de São João Cassiano sobre a Virtude Monástica. O livro Vida de Santo Antão, está subdivido, além da apresentação, em sete capítulos e conclui-se com o epílogo. Já a Conferência I de São João Cassiano divide-se em 23 pequenos capítulos, tendo por abordagem central os mais variados temas relacionados às virtudes. A este respeito a Conferencia sentencia: "o fim da nossa profissão, como já dissemos, é o Reino de Deus, ou o Reino dos Céus; a nossa meta, isto é, o nosso escopo, é a pureza de coração, sem a qual é impossível alguém chegar àquele fim".

CONTEXTO

Numa tentativa de contextualizar toda a narrativa descrita no livro, e respondermos em partes os questionamentos feitos no inicio desta publicação, que versam sobre a importância e os efeitos desta obra na história da Igreja, precisamos conhecer, mesmo que resumidamente, quem foi Santo Antão. Não se trata de uma biografia do santo, apresentamos apenas alguns dos acontecimentos que marcaram sua trajetória de vida e o seu testemunho cristão.

Santo Antão nasceu entre o ano 250 e 260 no Egito. Filho de camponeses abastados, Antão, tinha uma irmã. Com a morte dos pais, já contando entre 18 e 20 anos o jovem Antão escuta durante a missa uma homilia do bispo sobre a passagem do jovem rico. Após a missa ele procura o bispo e faz as mesmas perguntas do jovem do evangelho. E o bispo, repetindo as palavras de Jesus, respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu", Mt 19,21. Foi exatamente isso, que o santo fez. Vendeu tudo, distribuiu aos pobres, reservando apenas uma parte, que por direito pertencia a sua irmã.

Após esta decisão, santo Antão vai para o deserto e ali fica durante 20 anos. É importante notar aqui, que ele não vai ao deserto para ser santo, pois a exemplo do jovem do evangelho, ele já era santo. A ida de Antão ao deserto é para ver Deus, encontrar com Cristo. Durante a permanência no deserto, Santo Antão, esporadicamente, visitava os católicos nas minas de pedras, principalmente, aqueles que se encontravam presos aguardando o martírio. Vale ressaltar, que ser católico naquela época era um crime contra o império e o imperador. Mesmo assim, ele se lançava ao encontro dos cristãos que padeciam sob a força do império.

Nesta fase do cristianismo, ser um grande santo era ser um mártir. E Santo Antão não tinha medo de ir ao encontro do martírio. Como foi dito, anteriormente, ele fazia isso, confirmando os cristãos na fé, sobretudo, aqueles que estavam prestes a dá suas vidas por amor e fidelidade a Jesus Cristo. Acontece que a partir do século IV, por volta do ano 300 a 310, houve uma redução nas perseguições aos cristãos. Assim, no ano 313 foi promulgado o Édito de Milão, onde o Império Romano se colocava numa posição neutra, acabando oficialmente com a perseguição aos cristãos.

É neste momento, que Santo Antão se depara com outro inimigo da Igreja - a heresia ariana. Podemos perceber que a vida deste santo é marcada por esses dois momentos históricos: no primeiro momento o martírio dos cristãos e agora a heresia instalada no próprio clero. E Santo Antão, percebe essas duas realidades: o martírio e a heresia ariana. E o que era a heresia ariana? Resumidamente, era um questionamento a respeito da Santíssima Trindade, de forma particular, a respeito de Cristo. A pergunta suscitada entre os bispos era: Cristo é Deus? Os heréticos diziam que não! Eles olhavam para Cristo, não como o Verbo encarnado descrito por São João, mas como um semideus.

Dentro deste cenário, a atuação de Santo Antão se dá num primeiro momento, oferecendo um vigoroso testemunho no auxilio aos cristãos, para que permanecessem firmes na fé, mesmo na perseguição e no martírio. No segundo momento, ele dá um testemunho da sua própria fé, acusando os arianos de serem mentirosos e afirmando que ele mesmo tinha visto o Cristo. O testemunho de vida e as palavras de Santo Antão, possuíam um peso extraordinário, tornando evidente o que é a fé da Igreja e revelando as maquinações demoníacas dos arianos.

CITAÇÕES

"As energias da alma aumentam quanto mais débeis são os desejos do corpo", (Pág. 13).

"O deserto se povoou de monges que abandonavam os seus e se escreviam como cidadãos do Céu", (Pág. 23).

"Toda a vida do homem é muito breve comparada ao tempo vindouro, de modo que todo o nosso tempo é nada comparado com a vida eterna", (Pág. 24).

"Se também nós vivêssemos como se cada dia fôssemos morrer, não pecaríamos", (Pág. 27).

"A alma é reta quando a mente se mantém no estado em que foi criada. Mas quando se desvia e se perverte de sua condição natural, isso se chama vício da alma", (Pág. 28).

"O juízo que nos espera a cada um é se guardamos a fé e observamos fielmente os mandamentos", (Pág. 43).

"Por isso, cada um deve fazer diariamente um exame do que fez de dia e de noite; se pecou, deixe de pecar; se não pecou, não se orgulhe disso. Persevere antes na prática do bem e não deixe de estar em guarda. Não julgue o próximo nem se declare justo a si mesmo, como dia o santo apóstolo Paulo, até que venha o Senhor e traga à luz o que está escondido - Cor 4,5; Rm 2,16", (Pág. 66).

"Que esta observação seja nossa salvaguarda contra o pecado: anotemos nossos atos e impulsos da alma como si tivéssemos de informar a outro; assim podem estar seguros de que, pela pura vergonha de fazê-lo conhecido, deixaremos de pecar e de prosseguir com pensamentos pecaminosos", (Pág. 67).

"A fé surge da disposição da alma, enquanto a dialética vem da habilidade dos que a idealizam. De acordo com isto, os que possuem um fé ativa não necessitam de argumentos de palavras, e provavelmente os reputam supérfluos; pois o que aprendemos pela fé, vocês cuidam de construí-lo com argumentações e com frequência nem sequer podem exprimir o que nós percebemos", (Pág. 90).

O AUTOR

É impossível falar deste livro sem fazer referência a seu autor. Digo, fazer referência, não apenas no sentido de citar o seu nome, mas, de apresentar, mesmo que em síntese, algumas passagens do seu testemunho de cristão católico.

Santo Atanásio nasceu por volta do ano 295. Em 325, sendo diácono, acompanhou o patriarca Alexandre, ao Concílio de Niceia, onde foi condenada a heresia ariana. Ele foi consagrado bispo de Alexandria, sucedendo o patriarca Alexandre, em 08 de junho do ano 328. Sua vida pastoral foi marcada pelas controvérsias desencadeadas pelos arianos.

Embora, não tenha optado pela vida monástica, Atanásio possuía grande estima pelos monges. Relatos biográficos revelam que ele era assistido espiritualmente por Santo Antão, com quem cultivava boa amizade. Neste contexto, Atanásio se destaca na defesa da fé proclamada no Concílio de Niceia. E, tendo o arianismo alcançado às personalidades centrais do Império Romano, Santo Atanásio, sendo um dos poucos bispos que ousava defender a fé da Igreja, passou a ser perseguido.

Para ter uma ideia, dos 45 anos de sua atividade episcopal, passou quase 20 no desterro. No total, Santo Atanásio foi exilado 5 vezes. E para piorar a situação, o arianismo, condenado no Concílio de Niceia, continuava a espalhar sua heresia chegando ao berço do catolicismo, fazendo com que o Papa Libério excomungasse Santo Atanásio. Neste cenário, via-se o Oriente inteiro tornando-se ariano, menos Atanásio. Apesar de tudo, ele permanecia firme na verdade.

Por essa razão, a maioria de suas obras se dedica a rebater o arianismo, propagado pelo bispo Ário, e defender a fé proclamada no Concílio de Niceia. Santo Atanásio também foi pastor de almas. Entre seus escritos destacam-se suas cartas pastorais pascais e um tratado sobre a virgindade. E foi nesse conflito que o livro Vida de Santo Antão foi escrito por Santo Atanásio.

IMPRESSÃO PESSOAL

O livro Vida de Santo Antão, foi decisivo na conversão de milhares de cristãos, inclusive de santos. Entre tantos, podemos destacar São Bento, Santo Agostinho e Santo Antônio de Pádua. São Bento ao tomar conhecimento da existência de Santo Antão, decide ir viver no deserto. E, a partir dessa ida ao deserto, ele cria a regra de São Bento, dando origem a inúmeros mosteiros, que contribuíram decisivamente no processo civilizatório dos povos bárbaros. Já Santo Agostinho, conhecendo o testemunho de Santo Antão, decidiu deixar os Maniqueus e se converter ao catolicismo, tornando-se um grande doutor da Igreja. Por sua vez, Fernando de Bulhões em seu segundo processo de conversão, tem notícias do Santo do deserto e decide mudar o nome, passando a se chamar Antônio, que conhecemos hoje como Santo Antônio de Pádua.

Estas constatações me levam a creditar que a força do testemunho de um homem é caracterizada pela sua fidelidade ao amor de Deus. E esta fidelidade é demonstrada numa atitude de entrega total, onde prevalece a providência divina. Santo Antão e Santo Atanásio demonstram, cada um ao seu modo, esta fidelidade vivida e exigida por Nosso Senhor Jesus Cristo. Toda esta vivencia é materializada na oração, na contemplação, no jejum, na defesa da fé, enfim, na verdade proclamada ao longo dos séculos pela Igreja. Em síntese, podemos dizer que de uma desgraça nasce uma graça muito maior. O exemplo clássico é que da morte de Cristo nasceu a Ressurreição!

APRENDIZADO

Depois de ler e refletir sobre o testemunho de vida desses dois santos da Igreja Católica, num primeiro momento, consigo enxergar a minha pequenez, diante da afirmação de que sou um "cristão católico"; mas, num segundo momento chego a conclusão que o pequeno pode crescer, e, este crescimento espiritual se dá no compromisso autêntico com Aquele que é a razão da nossa existência, a razão do nosso ser. Portanto, dois ensinamentos ficam claro na vida desses santos: o encontro pessoal com o Cristo e o testemunho fiel nas ações e nas palavras. Na prática, é viver em "oração, contemplação, jejum, mansidão, tranquilidade, desprezo do dinheiro, falta de presunção, humildade, amor aos pobres, esmolas, ausência de ira, e, acima de tudo, sua lealdade para com Cristo".

CONSIDERAÇÕES

Maravilha... você chegou até aqui! Desejo profundamente, que este breve relato seja útil no seu despertar para grande riqueza de testemunhos cristãos que existe na literatura católica. Esta é uma, entre tantas obras que trazem relatos primorosos de homens e mulheres que viveram a radicalidade do amor a Deus, servindo os seus irmãos. E para auxiliar no conhecimento desses tesouros, agora podemos contar com o Clube da Leitura Católica, onde, além de você conhecer esta breve descrição, tornando-se assinante do Clube, você também pode ter acesso à leitura do livro físico e conhecer na íntegra o que indicamos aqui. Muito obrigado pela sua atenção! Bom, se for da vontade de Deus nos encontraremos na próxima postagem com a indicação de mais uma obra exclusiva para você.

Por Daniel Jorge